A INTOLERÂNCIA DA TOLERÂNCIA – Parte 2

Ser tolerante, aceitar opiniões das quais discorda sem, com tudo, concordar com essas opiniões, é uma marca do cristianismo que durará até a volta de Cristo. Olhemos para Deus, veja quantas coisas reveladas nas Escrituras que Ele discorda, mas que, no entanto tolera. E esse “tolerar de Deus” não significa que ele aceita todas as outras opiniões contrarias a sua vontade como se fossem igualmente validas, mas essa tolerância de Deus significa que, mesmo Deus discordando de outras opiniões existentes contrárias a sua vontade, ele permite que essas opiniões contrárias existam até o tempo determinado por Ele. Deus é tolerante com os sistemas contrastantes de pensamentos, até mesmo com aqueles que são contrários sobre o próprio Deus. No entanto, essa tolerância não é considerada como uma virtude, pois caso os seres humanos não se arrependam de seus pecados, eles perecerão. Deus está sendo tolerante a fim de levar pessoas ao arrependimento (Romanos 2.4).

Chegará um tempo em que Deus não permitirá que a sua vontade seja contestada, pois “no novo céu e na nova terra, os desejos de Deus não serão contestados, mas sim objeto de júbilo. Por enquanto, porém, César (leia-se: o governo) tem a responsabilidade de preservar a ordem social em um mundo caótico. Embora César permaneça sob a soberania providencial de Deus, há uma diferença entre Deus e César – e o próprio Jesus nos disse para darmos a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Não será assim no novo céu e na nova terra. Portanto, até essa tolerância legal, que os cristãos com certeza devem defender, pertence ao presente, aos tempos em que o reino de Deus alvoreceu, mas ainda não se consumou, ou (para dizer como os teólogos) a essa era de escatologia inaugurada, mas não ainda final”. (CARSON, 2013, p.15)
Para tentar resolver os conflitos entre diversos posicionamentos em relação ao mundo, muitos tem se aventurado a elaborar teorias que permita a pluralidades de ideias. Carson nos informa que duas parábolas foram contadas no passado que ilustram essa tentativa. Uma foi contada por Gotthold Ephraim Lessing. A parábola contada por Lessin diz que havia um homem que tinha um anel mágico que estava na família já há algumas gerações. Esse pai, que possuía o anel mágico tinha três filhos e em ocasiões diferente havia prometido o anel para cada um dos filhos. Como amava todos igualmente, mandou fabricar duas cópias idênticas do anel, os anéis eram tão parecidos que não dava para distingui-los, exceto pelo fato de um deles ter o poder mágico e os outros dois não. Antes de morrer entregou um anel para cada um dos filhos. Somente depois da morte do pai os irmãos descobriram que cada um havia recebido um anel de presente. Começou uma discussão entre eles para saber quem de fato possuía o anel verdadeiro. Mas na história de Lessin era impossível descobrir qual anel era verdadeiro. Os irmãos buscaram a ajuda de um juiz que os orientou a desistirem da busca sobre qual anel era mágico. Todos eles deveriam aceitar o seu próprio anel como sendo o verdadeiro e viverem de maneira reta, isso honraria o pai deles. Essa parábola foi contada por Lessin para incentivar a tolerância entre as três religiões monoteístas, Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. Hoje precisaríamos de diversos anéis para incentivar a tolerância mútua entre diversas religiões e posicionamentos ateístas que alegam ser verdadeiros. A outra história foi contada por Philip Jenkins e narra a conversa entre um patriarca da igreja Nestoriana e um Califa mulçumano. Algumas pessoas foram jogadas em uma casa escura e alguém joga uma pedra preciosa dentro da casa sobre um monte de pedras comuns. Todos começam a procurar a pedra e alguns pensam que a encontraram, mas ninguém poderá ter certeza até que amanheça e o dia revele quem estava com a pedra verdadeira.
As duas histórias afirmam que existe uma única verdade objetiva e que são tão parecidas que não podem ser identificadas neste mundo. Essas histórias foram criadas para incentivar a tolerância entre as pessoas com pensamentos e crenças diferentes, mas falham ao dizer que o verdadeiro é tão idêntico ao falso que é impossível distingui-los neste mundo. Pelos menos, na antiga tolerância, afirmava-se a existência de uma verdade única e objetiva, já a nova tolerância defende que “todos os anéis são mágicos e igualmente verdadeiros”. Como afirma Carson (2013, p.21) a nova tolerância diz que “devemos ser tolerantes não por sermos incapazes de distinguir o caminho certo do caminho errado, mas porque todos os caminhos são igualmente corretos”. No passado afirmar que alguém podia estar errado em relação as sua crenças era perfeitamente aceito, tolerado, na pós-modernidade, dizer que alguém pode estar errado em sua crença e que existe apenas uma única verdade objetiva é inaceitável. Você é taxado como um intolerante. Pois as estruturas de plausibilidade de nossa sociedade redefiniu a intolerância. “A intolerância deixa de ser a recusa em permitir que opiniões contrárias sejam expressas em público e passa a ser entendida como qualquer questionamento ou contradição da perspectiva de que todas as opiniões são iguais em valor, de que todas as cosmovisões têm o mesmo valor, de que todas as perspectivas são igualmente válidas. O questionamento desses axiomas pós-modernos é, por definição, intolerante, E, em relação a ele, não existe nem um pouco de tolerância, pois, por ser classificado como intolerância, deve ser condenado. Tornou-se o pecado supremo”. (CARSON, 2008, p.21) Ter que aceitar as outras cosmovisões como sendo todas elas verdadeiras é o axioma de nossa geração. Thomas A. Helmbock disse: “A definição da nova tolerância é que todas as crenças, todos os valores, todos os estilos de vida e todas as percepções de afirmações sobre a verdade dos indivíduos são iguais (…) Não há hierarquia da verdade. Suas crenças e minhas crenças são iguais e qualquer verdade é relativa”. (HELMBOCK apud CARSON, 2008, p.22) A nova tolerância é contraditória, absolutista, pois permite as afirmações de verdade de vários grupos diferentes, de varias cosmovisões, mas não permite nenhum absolutismo, “exceto a absoluta proibição do absolutismo. A tolerância prevalece, porém, não deve haver nenhuma tolerância para aqueles que discordam desta estranha definição da tolerância”. (CARSON, 2008, p.22)
Tanto a tolerância antiga quanto a tolerância atual possuem limites perceptíveis, ainda que a tolerância atual seja intolerante e mais restritiva do que a tolerância antiga, ambas estabelecem limites de tolerância. “Os defensores da nova tolerância muitas vezes não encontram um epíteto mais mordaz para lançar sobre aqueles de quem discordam do que “intolerante” e categorias relacionadas: sectário, mesquinho, ignorante e assim por diante. Os defensores da antiga tolerância raramente acusam seus adversários de serem intolerantes […]; em vez disso, seus epítetos são moldados por sua percepção do mal que não pode ser tolerado (assim, os defensores da eutanásia estão cometendo assassinato, homens que praticam atentados suicidas são terroristas, etc.)”. (CARSON, 2008, p.24) Em nossa sociedade, se você discorda das “verdades” estabelecidas e defendidas pela estrutura de plausibilidade do nosso tempo, você está cometendo um erro gravíssimo e será considerado um sectarista, mesquinho, ignorante, um intolerante. Carson afirma que a acusação de intolerância tem sido uma crença defeater e tem exercido uma poderosa influência no mundo ocidental. “Uma crença defeater é aquela que derrota outras crenças – em outras palavras, se você sustenta uma crença defeater como verdadeira (se é ou não é de fato verdadeira é irrelevante), você não pode sustentar outras determinadas crenças como verdadeiras: a crença defeater prevalece sobre outras crenças e, portanto, as derrota”. (CARSON, 2008, p.24) Um exemplo de uma crença defeater é: se você acredita que todos os caminhos (religiões) levam o ser humano a Deus, e alguém aparecer para você e dizer que só existe um caminho que leva o ser humano a Deus, essa outra pessoa será taxada, por você, como ignorante, intolerante, ela será derrotada por sua crença defeater que não acredita que exista apenas um único caminho para Deus. Se tomarmos apenas como exemplo uma grande metrópole como São Paulo, onde existam múltiplas crenças defeater altamente populares, você terá uma estrutura de implausibilidade, de modo que qualquer crença contrária a essas crenças defeaters serão consideradas indignas de serem ouvidas, e muito menos de serem consideradas persuasivas ou convincentes. Qualquer discussão que é levantada concernente ao certo e o errado, ao verdadeiro e o falso é medido pela sociedade contemporânea através do eixo Tolerante/Intolerante, com isso, se você se levantar para defender uma posição que contraria a estrutura de plausibilidade desse povo, você não será ouvido e logo será taxado de sectário, mesquinho, intolerante. Alguns mudaram suas posições, antes absolutistas para relativistas, a fim de serem ouvidos pela sociedade, de serem enquadrados na turma dos “tolerantes”.
Com essa nova tolerância, perdemos a chance de dialogar e expor a direção errada em que muitos se encontram. Levantar-se para fazer afirmações absolutistas, dizer que a verdade é objetiva e é uma só, é correr o risco de ser perseguido por uma sociedade que não tolera que “suas verdades” sejam contestadas. Parafraseando um famoso jornalista brasileiro: isso é um absurdo!

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