DIÁLOGO COM CALVINO #DIÁLOGO 1 – LIVRO I – CAPÍTULO: I

Calvino ensina que, o fato de seres humanos subsistirem em Deus, isso os capacita a serem pessoas melhores, é por causa dessa subsistência que tudo de bom que enxergamos nas ações de outras pessoas, em suas relações umas para com as outras, tudo isso advém do fato do ser humano viver em Deus, mesmo que muitos não saibam disso, mesmo que muitos não admitam isso, mesmo que muitos até rejeitem veementemente isso, como é o caso daqueles que não tem o conhecimento da Palavra de Deus, a Bíblia, conhecimento este experimental e não somente teórico. A base desse ensinamento de Calvino está firmada na passagem de Atos 17.28a que diz: “Pois nele [Deus] vivemos, nos movemos e existimos […] Porque dele [Deus] somos geração”. Esse trecho faz parte do discurso de Paulo em Atenas, e provavelmente, esta seja uma citação por parte de Paulo, de Epimênedes ou Cleantes, na primeira parte, e de Arato na segunda parte. Ou seja, Paulo está utilizando dois autores pagãos para explicar uma verdade universal, de que toda a existência humana é subsistência em Deus. Por isso, o mundo não é, em sua totalidade, feito só de ações cruéis, existe certa medida de bondade no mundo por causa da subsistência dos seres humanos em Deus.

Calvino se apropriando dessa verdade contida em Atos 17.28 está nos ensinando que através dessa bondade de Deus passada para os homens e através dos homens, nós deveríamos, com mais cuidado, buscar a fonte dessa bondade, pois no homem não reside bondade alguma, não há quem faça o bem, todos se desviaram, todos se corromperam, não há ninguém que faça o bem, nenhum sequer. Perdemos a capacidade de fazer o bem por nós mesmos no Éden. Não existe essa bondade natural, bondade inata como ensinam alguns. O ser humano não nasce bonzinho e vai ficando mau conforme vai crescendo e sendo influenciado pela sociedade, nós já nascemos maus. Então quando o homem observar sinais de bondade no outro, quando ele perceber a bondade no outro ou em si mesmo, esses pequenos atos de bondade deveriam leva-lo a pergunta mais importante e consequentemente a busca mais importante de sua vida: De onde vem a bondade que reside nos seres humanos? E através dessa busca, dessas bondades, gota a gota, em mim e nos outros, ele deveria ser conduzido até a fonte de toda bondade que existe no mundo e em cada ser humano, pois todo amor que reside no mundo vem de Deus, todo o bem que reside nas pessoas vem de Deus, toda bondade vem da fonte suprema de bondade – e essa fonte é Deus.

Consequentemente, ao nos depararmos com um ser tão depravado, egoísta, mesquinho e mal, como é o ser humano, e encontrar bondade nele, isso deveria nos espantar e nos levar, imediatamente, a fonte de toda bondade – Deus. A bondade que encontramos nas pessoas, mesma aquela bondade entre mãe e filhos, pais e filhos, filhos e pais, marido e mulher, amigos e amigos, parentes, mesmo essas bondades tem a sua fonte advinda de Deus, pois todos nós, seres humanos, temos certa medida de bondade por causa da nossa subsistência em Deus, no único Deus verdadeiro, e isso deveria nos conduzir para o alto, para a fonte, para Deus. Para que pudéssemos pedir mais de sua bondade em nós e nos outros, o mundo seria um lugar melhor se houvesse mais dessa bondade em cada ser humano. O fato de haver certa medida de bondade nos seres humanos não quer dizer que ele é bom.

A busca pela fonte de toda bondade que vemos nos seres humanos deveria também servir para que fossemos despertados pelo temor, sim pelo temor, porque se toda bondade, mesmo a mínima bondade que encontramos nos homens mais depravado provem do fato da subsistência do homem em Deus, isso significa que somos totalmente depravados, significa que somos maus, não há bondade em nós que provenha de nós mesmos, isso deveria causar temor em nós diante de Deus, pois ele é um Deus tão bom que empresta a sua bondade, mesmo para homens tão depravados, para que estes utilizem em beneficio de outros homens depravados. Todo bem que nós praticamos, conhecendo a Deus ou não o conhecendo, servindo a Deus ou não servindo, sendo amigo de Deus ou inimigo de Deus, praticamos por causa da nossa subsistência em Deus, não temos nada a oferecer de nós mesmos, absolutamente nada.

Isso consequentemente vai nos levar a outra questão muito importante, pois muitas pessoas pensam e ensinam que merecem o céu ou receber alguma benção de Deus porque se acham pessoas boas, entretanto, como temos falado, se toda bondade provém de Deus, que é fonte de toda luz e de todo dom perfeito, significa que eu sou mau, e se eu sou uma pessoa onde não existe bondade inata, significa que não mereço nada de Deus e que preciso da ajuda de Deus, preciso que alguém que seja totalmente bom, que seja o meu representante, para que eu, em nome dessa pessoa, suficientemente boa, possa receber algum presente da parte de Deus. Quem é suficientemente bom? Quem é perfeitamente bom? Somente o próprio Deus é bom o suficiente, por isso ele enviou Jesus Cristo, o seu Filho, suficientemente bom, perfeitamente bom, para representar todo aquele que nele crer, para representar todo aquele que nele confiar. Quem coloca a sua confiança naquele que é totalmente bom como o seu representante, o único que pode nos representar diante Deus, tem esperança, e dai aprende a humildade, pois sem Jesus não podemos fazer absolutamente nada, nem mesmo ganharmos algum presente de Deus!

Ao olharmos para nós mesmos podemos ver semelhança com o nosso criador, podemos ver até mesmo a bondade dele agindo em nós e através de nós. Mas o homem só conseguirá se conhecer perfeitamente se tiver o seu olhar voltado para Deus. Nós nunca saberemos quem nós somos se tivermos os nossos olhares voltados apenas para o nosso umbigo ou para o umbigo do outro, precisamos olhar para Deus. Pois é a partir da visão de Deus, olhando a si mesmo através dos olhos de Deus é que chegaremos ao conhecimento de nós mesmos. Calvino afirma que somos seres orgulhosos, o que de fato somos mesmo, e isso nos atrapalharia de ter uma visão de nós mesmos se comparecemos nós com o outro, pois aos nossos olhos sempre estaremos acima de uns e abaixo de outros seres humanos pecadores como nós. Por isso, precisamos olhar para o céu, e ver através dos olhos de Deus quem realmente somos. Isso porque qualquer aparência de “justiça” em nós mesmos nos satisfaz em lugar da justiça real e verdadeira, afirma Calvino. Pensemos na ilustração do homem da caverna que via imagens através das sobras e pensava que aquilo era o ápice de tudo o que se podia enxergar até que um deles se liberta de suas correntes e descobre o que de fato é real e verdadeiro, assim são todos os seres humanos que olham apenas para si mesmos e para os outros e não olham para Deus, eles não se conhecem como deveriam se conhecer.

Ouvimos dizerem por ai: “não se subestime” Mas o que aprendemos com Calvino é que temos que fazer o contrário, temos que nos subestimar, principalmente quando estamos falando de qualidades morais ou espirituais, ou qualquer outras qualidades que nos elevam a um outro “patamar” que tenhamos e que pensamos que a possuímos por nós mesmos – isto é uma mentira. Esse olhar equivocado acontece com aqueles que olham apenas para si mesmos e para os outros, olham na horizontal. Mas aqueles que tiverem coragem de olhar para o alto, para Deus, terão uma nova revelação de si mesmos, se descobrirão quem de fato são e toda aquela “qualidade” que observava em si mesmo não passará de trapos de imundícia diante da beleza e perfeição de Deus ao qual somos intimados a imitar.

Calvino continua falando sobre aqueles que tiveram um encontro com Deus, aqueles que tiveram uma experiência da sua presença. Quanto mais perto de Deus você estiver, mais feio você verá como és. Não se ofenda com isso, pois é verdade. Todos aqueles que tiveram um encontro com Deus, seja nas Escrituras ou durante a história da igreja, ficaram espantados ante a presença de Deus, pois na presença dele, nos enxergamos perfeitamente, e o espanto é pelo fato de termos passado tanto tempo nos enganando pensando que éramos bons, ou que tínhamos qualificações que nos garantiriam alguma benção por parte dele. Nós somos os patinhos feios. Diante dele fica patente a nossa feiura, nossa indelicadeza, nossa crueldade, nosso orgulho, nossa indignidade, nosso pecado.

Aprendemos com Calvino que quase todos o conhecimento, real e verdadeiro, que o ser humano possui, vem do fato de conhecer a si mesmo e conhecer a Deus. E que nessa escola precisamos olhar para Deus através de nós e daí veremos que muitas qualidades que julgamos inatas não pertencem a nós, mas é um empréstimo de Deus para o equilíbrio da existência nesse planeta. E também precisamos, simultaneamente ao primeiro passo, olharmos para Deus e nos olharmos através dos olhos de Deus, pois daí vem o conhecimento real de quem realmente somos. Quer conhecer a ti mesmo? Busque o Senhor, para de olhar para o seu umbigo e comparação com os outros, para de olhar para o lado, olhe para cima, olhe para Deus e saberá que você é verdadeiramente.

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