DIÁLOGO COM CALVINO #DIÁLOGO 2 – LIVRO I – CAPÍTULO: II

No primeiro diálogo vimos que Calvino nos ensina que quase todo o conhecimento verdadeiro e sólido que o ser humano pode ter, consiste de duas partes – o conhecimento de Deus e o conhecimento de si mesmo, e inevitavelmente, ao olhar para si mesmo o homem será direcionado para o conhecimento de Deus, pois a bondade que encontramos nas pessoas e através das pessoas é uma consequência delas subsistirem em Deus. O mundo elogia atitudes de amor e conclama de que tais pessoas são merecedoras da justa retribuição de Deus, o evangelho ofende o ser humano natural porque diz que o ser humano é mal e que toda bondade vista através da vida dos seres humanos é subsistência em Deus. A bondade com a qual somos atingidos são flechas que Deus nos manda através das pessoas para que sejamos instigados a busca-lo e conhece-lo. Ao olhar para nós mesmos somos direcionados para Deus, pois há coisas em nossas vidas que são empréstimos de Deus ao ser humano; ao olharmos para Deus descubro quem eu sou de fato. Para conhecer-me preciso conhecer, em primeiro lugar, Deus! A não ser que eu queira ter uma falsa impressão de quem sou no mundo.

Agora neste segundo diálogo aprendemos que o conhecimento de Deus para Calvino consiste em saber que Deus existe e também consiste em conhecer tudo o que for relevante à própria pessoa de Deus e sua glória. E este conhecimento só pode ser concebido no âmbito da religiosidade e piedade, fato que teria ocorrido naturalmente se o homem não houvesse pecado no jardim do Éden. Mas como o ser humano caiu, pecou no jardim do Éden, é necessária uma intervenção de Deus para que o ser humano o conheça.
Para Calvino, por causa do estado de morte do ser humano, ninguém sentirá a Deus, ou seja, ninguém conseguirá conhece-lo como Pai ou Salvador se Jesus Cristo não se interpor nesse abismo e fazer a mediação apaziguando a ira de Deus e reconciliando o ser humano pecador com o Deus santo. Existe uma nítida diferença entre conhecer a Deus como Criador e conhece-lo como salvador na pessoa de Cristo. Muitos creem na providencia de Deus como criador, sustentador e governador de todas as coisas, mas mesmo concebendo Deus dessa maneira, o ser humano ainda pode não aceitar a reconciliação por meio de Jesus Cristo. Embora em nossa época muitos tem se mostrado agnóstico em relação a Deus e o mundo espiritual, existe grande parte da sociedade que acreditam que Deus é o único Deus verdadeiro, o Criador dos céus e da Terra, dos animais e do ser humano, e mesmo assim não tem um conhecimento dele como salvador na pessoa de Jesus Cristo. Em surpreendido pela alegria, C. S. Lewis narra que passou do ateísmo para a crença em Deus por volta Abril a Junho de 1930, más só ao final de 1931 ele o conheceu como salvador na pessoa de Jesus Cristo, esse é um bom exemplo, embora não seja a regra, de que muitas pessoas podem até passar do ateísmo para a crença em Deus, ou mesmo já ter uma crença em Deus, mas não conhecê-lo como Salvador na pessoa de Jesus Cristo. Isso acontece, o conhecimento de Deus, afirma Calvino, pois Deus se dá a conhecer, tanto na criação, como na Bíblia, primeiro como Criador e depois se revela na face de Cristo [2ºCorintios 4.6]. Poderíamos ainda acrescentar que Deus também se revela na consciência de cada ser humano através das exigências da lei gravadas em seu coração (Romanos 2.15).
O Conhecimento de Deus trará, consequentemente, expressão de louvor a Ele por parte daquele que está conhecendo-o, pois este conhecimento mostrará, por conseguinte, que importa que todos os seres o adorem e o cultuem, mas que também saibam que é dele que procede todo o bem, pois ele é a fonte de todo o bem e precisamos buscar nele, não em outra fonte. À medida que prosseguimos em conhecer a Deus, nossa admiração, entusiasmo, louvor e adoração cresce em direção a Ele, e fica também, cada vez mais nítido, que a nossa satisfação e completude acontece quando nós o conhecemos e nos relacionamos com ele.
Está claro para Calvino que Deus é o sustentador, regulador, preservador, regente, guardador do mundo, e que também suporta o mundo por causa de sua misericórdia, também é fato que toda gota de sabedoria, luz, justiça, poder, retidão e verdade, emana dele, de sorte que todos que anelam por essas coisas, busquem na fonte de toda bondade e luz que é Deus e após terem recebidas deem graças a Ele. Calvino volta ao tema que foi falado no primeiro capítulo, os muitos atos de bondade, justiça, misericórdia, encontrado nas relações de uns para com os outros, são aquilo que C. S. Lewis chamou, quase quinhentos anos depois, de flechas de alegria com a qual somos atingidos desde a infância, e o objetivo dessas flechadas é descobrirmos quem as está desferindo, a fim de que cheguemos à fonte de toda a alegria – Deus.
Calvino diz que o reconhecimento destes poderes (bondades) como procedentes de Deus é próprio de quem é piedoso resultando no nascimento da religião. Para Calvino a piedade é “reverência associada com o amor de Deus que nos faculta o conhecimento de seus benefícios”. Enquanto o ser humano não perceber que todos os benefícios gozados pelo homem, bem como todo cuidado, vem de Deus que é fonte de todas as coisas boas, não se renderão em obediência voluntária a Deus, enquanto não acreditarem e confiarem que a plena felicidade só é encontrada em Deus, não se renderá por inteiro, ou seja, verdadeiramente e de coração. É por isso que vemos muitas vezes pessoas tristes que acreditaram que a fonte de sua felicidade estava no cônjuge, no casamento, na carreira, no filho, nos pais, numa viagem, numa mudança de cidade, estado, país, etc. Tudo isso é utilizado por Deus para nos mostrar que a fonte de toda satisfação e alegria está nele. E Deus mostra isso na ausência e na abundancia desses bens.
A confiança em Deus e a reverência para com Ele são resultados do conhecimento de Deus. Portanto a pessoa que o conhece não se perde em questões frívolas, mas antes se interessa em saber qual é natureza de Deus e o que lhe convém. O nascimento do ser humano piedoso advém do seu conhecimento de Deus, conhecimento este mediado pelo próprio Deus, através das Escrituras na Face de Cristo. À medida que o ser humano torna-se piedoso através do conhecimento de Deus, esta piedade o leva a aprofundar o conhecimento de Deus, sempre na mediação das Escrituras na Face de Cristo.
O Deus que se revelou nas Escrituras é um Deus que interage com a sua criação, ele a sustenta e preserva, ele cuida de todo os aspectos e isso inclui a vida do ser humano, por isso temos muito a ver com Deus e o conhecimento dele induzirá o ser humano ao temor e a reverência, tendo-o como Guia e Mestre e aprendendo a buscar todo o bem nele, bem como em render-lhe graças por tudo que tem recebido acreditando que dele procede todas as coisas.
Uma vez que somos feitura de Deus, diz Calvino, como podemos pensar em Deus, refletir sobre ele e não trazer a memoria que lhe devemos a vida, pois ele nos sujeitou ao seu domínio na criação e devemos o considerar em tudo o que fazemos.
Uma vez que o ser humano tem esse reconhecimento de que pertence a Deus em razão dele nos ter criado e de que dele procedem todas as coisas boas, isso deveria leva-lo a busca de Deus, desejando-o e apegando-se a ele, entretanto não é isso que acontece, pois o ser humano desvia a sua mente da investigação correta e se perde em sua própria depravação, e isto acontece para a sua própria destruição.
Para Calvino, a mente piedosa não concebe em sua mente um deus conforme a sua própria imaginação, a mente piedosa contenta-se em contemplar Deus conforme o próprio Deus se revelou. A mente piedosa não vai além dos limites da vontade de Deus e nem aquém da sua vontade, ela se esforça para enquadrar-se na vontade revelada.
Aquele que conhece Deus dessa forma em todas as nuanças de sua personalidade, o piedoso, confia nele e entrega-se a ele para todas as questões da vida, pois está se entregando para a fonte de toda bondade e alegria – Deus. Este reconhece que Deus, o Criador de todas as coisas, é também Senhor e Pai, é Soberano e misericordioso, e isso fará, consequentemente, que o ser humano piedoso reverencie a majestade de Deus, bem como tente promover a glória de Deus, pois reconhece que Deus estabeleceu preceitos que precisam ser obedecidos, pois Deus é justo juiz, e assim o ser humano piedoso considera tanto o seu amor e misericórdia bem como a sua severidade. O ser humano piedoso tem sempre diante dos seus olhos o tribunal de Deus, isso nutre o temor que ele sente diante de Deus afastando-o do pecado e de provocar-lhe a ira, ele “refreia-se de pecar não só pelo temor do castigo, mas porque ama e reverencia a Deus como Pai; honra-o e cultua-o como Senhor; e mesmo que não existisse nenhum inferno, ainda assim treme só a ideia da ofensa”. O ser humano piedoso não se desvia do pecado apenas com medo do inferno ele desvia-se do pecado, pois o pecado para ele é como cuspir na face de Deus – e ninguém jamais cuspiu na face da pessoa amada.
Para Calvino a religião pura e real consiste da “fé aliada a sério temor de Deus, de modo que o temor não só em si contém reverência espontânea, mas ainda traz consigo a legítima adoração, a qual está prescrita na lei. E isto se deve observar com mais diligência: enquanto todos veneram a Deus de maneira vaga e geral, pouquíssimos o reverenciam de verdade; enquanto, por toda parte, grande é a ostentação em cerimônias, rara, porém, é a sinceridade de coração”.

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