DIÁLOGO COM CALVINO #DIÁLOGO 3 – LIVRO I – CAPÍTULO: III

Para Calvino o ser humano ao ser criado já foi feito com uma disposição natural para a divindade (Sensus Divinitatis), ainda que essa noção fosse limitada, Deus não deixou de colocar em sua criação a noção de sua divina realidade. Além dessa noção natural infundida no ser humano Ele ainda destila novas gotas de sua realidade, continuamente, de maneira que todos tem em si mesmo o testemunho interno de que Deus existe e que é o seu Criador, a despeito de toda essa revelação interna, o ser humano não presta o culto devido a Deus e não consagra a vida a sua vontade, por isso são indesculpáveis.

Como exemplo desse senso da natureza divina instilado na mente humana, podemos ver os povos mais afastados da civilização humana, mesmo que sejam mais retrógrados ou bárbaros, neles está profundamente arraigada à convicção de que Deus existe. Mesmo entre povos mais civilizados está, persistentemente, no interior de todos os seres humanos, esse pressuposto comum ao ser humano – Deus existe, isto é, a semente da religião (reverência). O pressuposto da existência da divindade está profundamente penetrado na mente de todos os povos, seja este povo estulto ou culto.
Como entre todos os povos está explicito a existência de uma busca pela divindade, fica claro para Calvino que existe “uma tácita confissão de que no coração de todos jaz gravado o senso da divindade”, isso fica evidente até mesmo na idolatria, visto que o homem cria imagens de deuses, que pressupõe estar acima de si mesmo, para adorá-lo. Desde a criação do mundo, entre todos os povos, em todas as culturas, não existe nenhum povo que prescindiu da religião, nisto, está provado que no coração do ser humano está tácito o senso da divindade, este senso está gravado no coração de todos invariavelmente.
A idolatria é uma evidência de que o senso da divindade está gravado no coração do ser humano. O homem prefere render culto à madeira ou à pedra, [ou à ciência], isso lhe parece ser melhor do que ser considerado alguém que não tem nenhum Deus [os novos ateus tem colocado, muitas vezes, em posição de deus, mesmo que inconscientemente, a ciência, o materialismo], essa busca por algo, ou alguém acima de si mesmo, seja um deus ou a ciência, reflete quão assombrosamente está impresso no coração do ser humano a busca pela divindade e isso não desaparecerá da mente do ser humano, pois Deus os fez assim, de forma que o ser humano sempre será quebrantado quando passar da sua altivez natural para a adoração a Deus.
Tendo em vista que o coração do ser humano foi feito para buscar Deus, é ilegítima a afirmação daqueles que argumentam que a religião foi inventada por uns poucos com o objetivo de sujeitar o populacho simplório. Isto posto, a religião não foi concebida na imaginação do ser humano, não é fruto da inteligência humana, não é resultado da sagacidade de alguns poucos homens com a intenção de manterem em sujeição o populacho simplório, a religião não foi inventada por homens que não acreditava em Deus, mas que fizeram isso com o propósito de controlar as massas.
É claro que existem aqueles que se utilizam da religiosidade para inculcar medo nas pessoas e ter influencia sobre elas, mas isso não seria possível, afirma Calvino, se não houvesse a convicção da divindade no coração do ser humano que o tornou propenso para a religião. Por causa da propensão, existe a exploração, e nessa matéria todos são enganados, quem influencia e quem é influenciado. Sem duvida existem pessoas astutas que são mais obedientes a si mesmas e que inventam muitas coisas em matéria de religião com o objetivo de inculcar reverência e temor nos incultos. Mas, isso só é possível porque na mente do ser humano já existe o senso do divino, é ingênito na mente humana a convicção acerca de Deus, é uma semente embutida por Deus em cada ser humano criado, é o pendor natural para a religião (reverência).
Para Calvino não é a falta de crença a respeito de Deus que levou certas pessoas mais esclarecidas a explorarem as pessoas menos esclarecidas por meio da religião, mesmo porque, Calvino afirma que ainda que tenham muitas pessoas que negam a existência de Deus, de tempos em tempos essas pessoas são acometidas de certo sentimento acerca daquilo que eles desejam ignorar.
Calvino usa o exemplo de Gaio Calígula para apoiar o que disse acima, Calígula expressou o seu desprezo pela divindade aos quatro ventos, entretanto, ninguém tremeu mais miseravelmente ante a manifestação da ira divina do que ele. Embora tinha um desprazer na divindade que a todos deixava explicito, desprezando-o publicamente, estremecia apavoradamente diante de Deus. Este pavor miserável, essa expectação do juízo, aflige a todos que, semelhante a ele, se comportam. Aqueles que petulantemente desprezam a Deus, ao menor ruído de uma folha que cai se apavoram tremendamente (Levítico 26.36).
Este pavor atemorizante vem da parte de Deus sobre todos aqueles que dele tentam fugir, a expectação do juízo lhes espicaça a consciência afligindo-os e exigindo uma solução imediata.
Estes homens, que tentam fugir, buscam por todos os esconderijos possíveis para tentarem se esconder da presença espicaçante de Deus em suas consciências. É um esforço continuo para apagar da memória o senso divino, mas mesmo que exista esse esforço e por breve momento consigam apagar da memória, logo o senso divino lhes espicaça a consciência novamente com ímpeto. O Alivio que estes homens têm da ansiedade da consciência é como o sono do Cavalo, dura pouquíssimo tempo, eles não conseguem repousar tranquilamente, e logo são atormentados por choques da realidade terríveis e apavorantes. Esse medo perturbador, por causa de qualquer ruído ante ao juízo de Deus é um tormento que espicaça a consciência do ser humano que tenta fugir de Deus. Este ser tenta encontrar esconderijos, a exemplo de adão no jardim, para que de alguma maneira tentar se ausentar da presença de Deus, ou tentam apaga-lo da memória, mas quanto mais fazem isso, mais ficam enredados na memoria de que há algo errado, que não vai bem e assim desemaranhando-se do propósito para o qual foi criado, sofre, assiduamente, acossados por medos terríveis e apavorantes, mesmo que de tempos em tempos a intensidade dessa angustia da alma, ceda espaço para um breve alivio dessa ansiedade da consciência.
Os próprios ímpios são exemplos de que existe um estímulo congênito na alma de todos os seres humanos levando-os a alguma noção de Deus. Aqueles que julgam com acerto, afirma Calvino, sabem que o Sensus Divinitatis está gravada na mente de todo ser humano e jamais poderá ser apagado, pois o Sensus Divinitatis é ingênito a todos os seres humanos e a própria teimosia dos ímpios que tanto tenta se desvencilhar do medo de Deus, no entanto, sem conseguir é claro, é uma testemunha qualificada do Sensus Divinitatis.
Ainda que na história da humanidade muitos zombem da religião (reverência a Deus), ridicularizando o juízo divino, isso não passa de um sarcasmo maldoso, pois em seu interior a consciência atormenta mais penetrante que todos os cautérios.
A despeito da opinião da sociedade, um erro nunca se tornará obsoleto, ele sempre será uma falha em fazer o que é certo mesmo que contrarie toda uma sociedade, pois não é a “verdade subjetiva” de uma determinada sociedade que estabelecerá o certo e o errado, existe uma verdade objetiva, universal que nunca deixará de ser verdade a despeito da opinião da sociedade. O mundo tenta de todas as maneiras de que dispõe a lançar para bem longe o conhecimento de Deus e tudo o que está relacionado a Deus, desta maneira ele tenta corromper toda a reverência que é devida a DEUS por parte dos seres humanos. Enquanto em sua própria mente o ímpio perde as forças para lutar contra o Sensus Divinitatis implantado em sua mente, pois o Sensus Divinitatis, muitas vezes cresce vigorosamente exigindo um embate vigoroso, que claro não será vencido, por aquele que luta tão ferreamente, desejando ardentemente extinguir esse Sensus Divinitatis, pois esse sensos divinitatis não é algo que se aprende em algum lugar, mas vem desde o ventre materno, é congênito ao ser humano e mesmo que haja luta para se desvincular desse Sensus Divinitatis, toda tarefa empreendida é perda de tempo, e recalcitrar contra o aguilhão.
Nem todos vivem com a disposição de conhecer a Deus, e isto é evidenciado pela falta de confiança e reverência para com Deus, mostrando que o tal conhecimento que a pessoa alega ter é na verdade invalido e pueril, visto que o afasta do proposito principal para o qual foi criado. Se o conhecimento de Deus não o leva a reverenciá-lo, então este conhecimento que você tem de Deus caiu, não existe mais, e é superficial, inútil, sem constância, pois todos os que não dirigem tudo o que pensam e fazem a esta meta – conhecer Deus e reverenciá-lo – estão se afastando do propósito para o qual foram criados. O supremo bem da alma é a semelhança com Deus que vem do conhecimento dele, se a religião (reverência a Deus) está ausente em sua vida, essa pessoa em nada difere dos animais, pois além de estarem sujeitos a todo tipo de males ainda levam uma vida confusa e perturbada.
O que faz do homem superior aos animais é o culto a Deus pelo qual eles anseiam à imortalidade.

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