DIÁLOGO COM CALVINO 04 – #DIÁLOGO 04 – LIVRO I CAPÍTULO IV

Embora exista a semente da religião em cada ser humano, dificilmente há alguém que faça crescer essa divina semente em seu próprio coração, muito menos alguém que faça, por conta própria, essa semente amadurecer ao ponto de aparecer os seus frutos. O aparecimento da semente divina no coração do ser humano é algo congênito a raça humana, ela foi dada por Deus a todos os seres humanos na criação, o crescimento dessa semente também é algo que independe da vontade humana.

Algumas pessoas se perdem em suas próprias superstições, outras decidem espontaneamente se alienarem de Deus, todos perdem o seu verdadeiro conhecimento de Deus e é por isso que não existe no mundo nenhuma piedade genuína. Todos se extraviaram, ninguém busca a Deus, todos os que o buscam é porque Deus o buscou primeiro.

Para Calvino a ignorância ingênua dos que se perdem em superstições não os isentam de seus erros, pois essa incapacidade de ver a verdade está misturada com a vaidade arrogante e desrespeito insistente. A satisfação (prazer) do individuo que abandona o bom senso em favor da aparência ilusória (vaidade), é demonstrada por aqueles que na “busca do conhecimento de Deus” o medem de acordo com o padrão insensível de sua pecaminosidade, em decorrência disso, eles fazem uma investigação desinteressada, sem atenção, desleixada, pois não estão interessados na verdade, apenas em alimentar a sua própria curiosidade, por isso, são atraídos por especulações sem fundamento, consequentemente não veem Deus como ele se revela, mas o imaginam de acordo com sua própria imprudência. Muitos tem seguido este caminho, mesmo pessoas que confessam o cristianismo e frequentam alguma igreja tem concebido um deus que não é o Deus da Bíblia que se revelou nas Escrituras e na pessoa de Jesus Cristo – elas criaram um ídolo.

Após isso, afirma Calvino, revelado esta autodestruição, imaginar um Deus conforme a suas fantasias e sonhos, para qualquer lado que se movam, estarão andando em direção a ruína completa de si mesmos, portanto, todo esforço que fazem em serviço ou culto a Deus é vão, pois estão cultuando, servindo e adorando um deus idealizado por suas fantasias e sonhos, um falso deus. Os que agem dessa forma querendo ser sábios se fazem inúteis e consequentemente tornam-se cegos, porquanto, desprezaram a sobriedade atraindo para si mesmo trevas; e por conta desse ímpeto de autodestruição se tornaram insensatos. A insensatez não é resultado apenas de uma curiosidade sem fundamento, mas o desejo de saber além do que convém aliado a um falso julgamento, ou seja, baseado em uma busca que não está interessado em saber a verdade, mas apenas em satisfazer a curiosidade. A verdade ao invés de ser buscada é rejeitada e enfrentada – a busca por satisfazer a curiosidade é como se fosse um entretenimento, só tem o propósito de distrair.

Diz o tolo em seu coração: “Deus não existe”. (Salmos 14.1, 53.1) Essa afirmação, diz Calvino, é feita por aqueles que sufocaram a semente divina em seus corações e se fizeram insensatos, é consequência de um coração que se tornou insensível pelo modo errado de viver, constantemente em negação a semente divina implantada em sua natureza, é resultado da persistência em viver no pecado que os faz repelirem furiosamente toda lembrança de Deus, que, no entanto, é espicaçada a consciência constantemente sem ser constrangido ou incitado por outrem – o senso da divindade.
A negação da existência de Deus por parte do tolo, consiste em despojar Deus de seu juízo e providência, trancafiando-o como alguém que nada faz nos céu e que consequentemente não interfere nos acontecimentos do mundo e não pune o ímpio, ora, se estes homens conseguirem eliminar o temor do julgamento divino, se entregarão, sem pudor e despreocupados, a qualquer prática que tiverem vontade.
A punição de Deus para estes homens é dar-lhes olhos que não veem, ouvidos que não ouvem e mentes que não entendem, o coração deles está coberto de gordura e não temem a Deus e se aprovam em todas as suas demandas (Mateus 13.14,15; Isaias 6.9,10; Salmos 10.1, 17.10 e 36.1).
Embora os homens sejam compelidos pelo senso da divindade a reconhecer Deus, eles diminuem a glória de Deus privando-o, por exemplo, de poder, consequentemente, de seu juízo e providência, ou seja, eles forjaram um deus falso, um ídolo que é inerte e inútil, isso é uma negação de Deus que se revelou nas Escrituras – a Bíblia. Ainda que estes homens lutem contra o senso da divindade e tentem obstinadamente lança-lo para fora de suas consciências e até mesmo remove-lo do Céu, como na afirmação: “Deus na existe”, constantemente eles são levados a “barra do tribunal de Deus” e o senso do juízo lhes perturba a mente. Mas estes homens lutam para que não se abata e domine sobre eles nenhum temor, lançando contra Deus violentamente como na negação: “Deus não existe”, ou tentando diminuir o seu poder, mas quanto mais fazem isso, mais cega se torna a sua ira contra Deus e mais ficam insensíveis a Deus, reina neles um esquecimento de Deus.

Assim são derrubadas as inconsistentes defesas com que muitos costumam defender a própria superstição. Muitos pensam que um zelo superficial pela religião, sem se importar qual a natureza da religião e se ela é falsa, é o bastante, mas não consideram que a verdadeira religião tem que está em conformidade com a vontade de Deus, pois ele é imutável e não muda conforme a vontade de cada um. A superstição zomba de Deus enquanto tenta se mostrar como um valor atrativo, enquanto tenta mostrar que proporciona utilidade intelectual, estética, que desperta o interesse e a sensibilidade. Pois a superstição se apega aquelas coisas que Deus não aprova, ou seja, aquelas coisas das quais ele já falou que não convém, a superstição trata com desdém essas reprovações e rejeita disfarçadamente aquelas coisas que Deus prescreve e ensina e que são do seu agrado.

Tais pessoas nunca levam a Deus em consideração verdadeiramente, as pessoas só consideram a Deus quando são por ele constrangidas, e a aproximação a Deus, por parte dessas pessoas, só acontece quando o próprio Deus as atrai, arrastando-as, não levando em conta a resistência dessas pessoas. O temor genuíno que brota da reverência da pessoa em reconhecimento da majestade de Deus não acontece com estas pessoas, pois elas têm apenas um temor condescendente e pressionado por causa da expectação do juízo divino a qual não conseguem se livrar ainda que tentem e se apavorem com esta ideia de que um dia terão que prestar contas a Deus, por isso mesmo, tentam, de todas as maneiras possíveis, invalidar o juízo divino até mesmo abomina-o.
Calvino continua dizendo que o temor dessa terrível expectação do juízo divino foi o primeiro a dar origem aos deuses no mundo, conforme asseverou o poeta pagão, Eustáquio. Todos aqueles que desprezam a justiça de Deus estão, tentando destruir, excessivamente, a ideia do juízo divino, pois sabem que esse mesmo tribunal existe para punir todos aqueles que cometem transgressões, ou seja, não andam conforme a vontade de Deus. Cada atitude dessas pessoas está voltada contra o Senhor, mas Deus não pode renunciar ao seu juízo, pois ele é Deus de justiça. Como não conseguem repelir e nem fugir desta terrível expectação do juízo divino, ficam em choque diante dela. Com isso, para que pareçam aos outros que eles não desprezam o juízo divino e que estão lutando contra o senso divino que os perseguem, eles começam a praticar algo que tem a aparência da religião (reverência). Mas esta aparência não os impede de continuarem a praticar todos os vícios e abominações que são contrários a vontade de Deus, de sorte que eles estão sempre avançando em suas abominações até que consigam desrespeitar toda a vontade de Deus expressa em sua Palavra, ou seja, eles não são impedidos, por esse falso temor a Deus, de continuarem andando nos caminhos semelhantes de uma pessoa que não conhece a Deus, eles não se afastam dos pecados, antes tem prazer neles, se alegram neles e se orgulham deles. Eles preferem atirar-se com grande entusiasmo e excessivamente nos desejos de sua natureza pecaminosa, mas não dão liberdade para o Espírito Santo os constranger e para que ele os refreie desses atos pecaminosos.
Uma vez que essa atitude é uma aparência vazia e enganadora da religião ao ponto que tal pessoa nem deveria ser chamado de religioso (reverência para com Deus), isto nos mostra como a verdadeira piedade difere deste falso e confuso conhecimento de Deus. A piedade é derramada, gota a gota, somente no coração dos fieis, daqueles que conhecem Deus verdadeiramente, dai nasce à religião, ou seja, a reverência a Deus. Por meio de caminhos tortos que demonstram em seu viver, os hipócritas pretendem insinuar que estão pertos de Deus, mas como ficou demonstrado acima, eles estão fugindo. Pois, quando eles deveriam obedecer todo o conteúdo da Palavra de Deus (a lei) durante toda a vida, no entanto, eles se rebelam contra Deus e sua vontade em quase todos os atos, esforçando-se para apaziguar a ira de Deus através de sacrifícios sem valor que não podem paziguar a ira de Deus e só cauteriza a consciência, enquanto deveriam servir a Deus em santidade de vida e inteireza de coração, mesmo sabendo disso, eles empreendem observâncias mesquinhas e sem valor na tentativa de reconciliá-los não com Deus, mas consigo mesmos – uma tentativa de calar a consciência. Muitos acreditam que podem ficar livres da obrigação de seus deveres para com Deus através de sacrifícios risíveis de expiação que não tem nenhum valor. Ao invés de colocarem a sua confiança em Deus, colocam a sua confiança em si mesmo ou em qualquer outra criatura, assim ficam cada vez mais presos em grande volume de erros, sufocados em uma nuvem escura de depravação que os esconde cada vez mais até que seja extinto aquelas faíscas de luz que brilhavam apontando para a glória de Deus.
A semente de Deus, que não pode ser eliminada da vida do ser humano, permanece, porém ela está corrompida e por isso produz frutos ruins. Existe uma característica comum a todo ser humano, a saber, que o senso da divindade está indelevelmente gravado em cada coração. Prova dessa gravura indelével é a confissão forçada que fazem todos os ímpios, a saber, quando estão em uma situação favorável zombam intencionalmente de Deus tentando diminuir o poder dele rigorosamente; e quando estão em uma situação de desespero, são movidos a buscar o auxilio de Deus. Porém, esta busca por ajuda que deveria acontecer mais cedo, foi sufocada e reprimida pela obstinação.

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