A INTOLERÂNCIA DA TOLERÂNCIA – PARTE 3

Tolerância faz parte da estrutura de plausibilidade da nossa sociedade. O termo “estrutura de Plausibilidade” foi criado pelo sociólogo Peter L. Berger e refere-se a estruturas de pensamento, ou seja, regras, verdades, podem ser verdades objetivas ou verdades subjetivas que uma determinada sociedade acredita e que de forma geral é quase inquestionável. Estas sociedades creem que estas regras e verdades em que elas acreditam é a própria estrutura da sociedade se manter em pé, se uma dessas regras ou verdades cair toda a sociedade corre o risco de desabar, assim, essas sociedades sustentam essas regras e verdades com maior obstinação. O que Carson defende em seu livro é que a “tolerância” faz parte dessas regras e verdades que a sociedade defende obstinadamente, ao ponto de todos aqueles que a questionam serem taxados de insensíveis e grosseiros.

A tolerância da nossa sociedade virou um ditador, e essa tolerância que está impondo o que é lícito e o que ilícito escrever, falar e fazer, ela dita o que é moralmente correto, a tolerância da nossa sociedade tornou-se intolerante, com isso ela torna-se socialmente perigosa e intelectualmente debilitante.
Precisamos aprender distinguir que eu posso aceitar que uma opinião diferente ou oposta da minha possa existir e que isso não significa que eu não vou me opor a ela, já a “tolerância” da nossa sociedade apregoa que o fato de eu aceitar uma opinião diferente ou oposta a minha significa que eu acredito que esta opinião é verdadeira ou tão verdadeira quanto a minha, é aqui que a “tolerância” da nossa sociedade torna-se socialmente perigosa e intelectualmente debilitante. Vivemos em uma sociedade em que podemos expressar a nossa opinião livremente? Podemos articular uma opinião que contrarie a opinião popular e midiática sem que sejamos alvejados por críticas e chamados de intolerantes? Temos o direito de afirmar que todas as crenças e argumentos não são igualmente válidos? Sairemos ilesos desse confronto em nossa sociedade? Dizer: – Eu não concordo com você! É um crime hediondo em nossa sociedade.
Um dia desses, eu estava indo ao trabalho, de ônibus. Foi naquela semana em aconteceu o estupro coletivo da menina de 16 anos no Rio de Janeiro. Várias discussões aconteceram em torno daquele assunto nas semanas seguintes. No ônibus em que eu ia para o trabalho, uma passageira conversava amigavelmente com o cobrador do ônibus até que ele expressou uma opinião que era contrária a daquela mulher e de grande parte da sociedade. Aquele cobrador teve a infeliz ideia de dizer àquela passageira que a menina de 16 anos havia sido estuprada porque ela quis. A passageira ficou revoltada. Começou gritar com o cobrador, todos nós, eu e os outros passageiros, estávamos sem saber o que estava acontecendo, pois a pouco tempo eles estavam tendo uma conversa aparentemente amigável. De súbito, aquela passageira olhou para o fundo do ônibus, depois da catraca, ela estava na parte da frente do ônibus, e começou a falar, em especialmente as mulheres que estavam no ônibus:
– Mulheres, prestem atenção – gritou ela – Esse cobrador está dizendo que a menina de 16 anos foi estuprada porque ela quis. Vocês concordam com ele?
Ninguém se manifestou. Mas ela continuou:
Esse homem é um machista – gritava ela com mais raiva incitando as outras passageiras a fazerem algo contra o cobrador.
Como ninguém se manifestou aquela passageira que estava segurando uma garrafa de água em sua mão, destampou a garrafa e jogou a água no cobrador molhando ele todo.
O cobrador ficou furioso, bateu a mão no caixa e pediu para o motorista parar o ônibus:
– Fui agredido no meu local de trabalho – gritava ele – pare o ônibus motorista, vou chamar a policia!
Neste momento todos nós tivemos que descer do ônibus e esperar por outro ônibus. Não sei qual foi o desfecho daquela história.
Quem estava certo nessa história? Em minha opinião nenhum dos dois. O cobrador porque demonstrou em comentário ser machista e preconceituoso em relação às mulheres e mulher por agredi-lo e incitar outras mulheres para fazer o mesmo contra aquele cobrador porque discordava da opinião dele. É claro que o cobrador estava errado, mas ele não tinha o direito de expressar a opinião dele mesmo estando absurdamente equivocado? Será que a violência daquela mulher contra ele, agredindo-o e incitando outras a fazerem o mesmo, era a melhor resposta ao erro do cobrador? Não seria melhor expressar a opinião diferente do cobrador e mostrar a ele porque aquela opinião dele não era boa?
Talvez esse exemplo seja extremo demais para ilustrar aquilo que acontece diariamente em nossa sociedade, mas todos os dias, as pessoas defende tenazmente a “tolerância” apregoada por nossa sociedade, e sempre que alguém se manifesta contra essas “regras” e “verdades”, essa “nova tolerância”, são alvejadas com todo tipo de violência e injustiça. Estamos perdendo o direito de expressar as nossas opiniões, ainda que estejamos errados sobre estas opiniões – a tolerância da nossa sociedade está cada vez mais intolerante.

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